Minha história no mundo da leitura e da escrita não é muito diferente das demais que já li e houvi, e como todas, cheias de incertezas, fantasias e descobertas.
Lembro-me que era um anseio de minha mãe que eu chegasse na idade de poder frequentar a escola, para que ela pudesse costurar minha farda. Sim, porque ela era e ainda é uma excelente costureira. Não dela falando que estava ansiosa para que eu “aprendesse a ler”. De tanto ela costurar fardas para as filhas de suas clientes, almejava o dia em que iria, com orgulho, realizar o sonho de ver sua primeira filha seguir o caminho da escola com o fardamento costurado pela mãe. Nesta época, que não faz muito tempo – lembro-me como se fosse ontem – a farda era composta por uma saia azul-marinho, toda plissada, com um suspensório e uma blusa branca do tipo camisa masculina, com um bolso, que era comprado à parte, onde havia o símbolo da escola. Meia branca e sapato preto e para completar uma bolsa simples para os cadernos e uma linda lancheira. Ah! Já ia me esquecendo, também tinha que levar um acento, pois a escola só dispunha de duas mesas para acomodar os alunos, num velho prédio localizado num pequeno distrito chamado de Umbuzeiro-PB, chamado Santa Cecília, cidade já a mais de 10 anos.
Até a alguns anos atrás, guardava comigo os velhos cadernos daquela época. As letras disformes, sem seguir a linha do caderno, num movimento de sobe e desce. Ao que me lembro sempre fui uma aluna muito aplicada e me destacava na sala pelo capricho nas coisas que fazia. Logo aprendi a ler e escrever. Esses eram os objetivos. Nada se falava sobre a compreensão da leitura. A principal nota de Português era a leitura, que treinávamos em casa. Tinha o dia marcado como se fosse uma prova. Muitas vezes eu apenas decorava, pois os textos eram pequenos e fragmentados. Muitas vezes nos vangloriávamos um para o outro por termos conseguido decorar o texto marcado.
Infelizmente não existiam livros infanto-juvenis disponíveis na escola como nos dias de hoje. Não havia biblioteca e muito menos programas de governo para incentivo à leitura. Assim que aprendi a ler, procura qualquer coisa para treinar meus dotes de leitora. Eram embalagens e rótulos de produtos, letreiros de pontos comerciais, etc. O método utilizado pela professora creio que foi o silábico, onde aprendíamos primeiro a família silábica e depois as palavras. Vez por outra quando encontrava alguma palavra que sabia ler, eu já ia dizendo que aquela palavra era da família do “m” de mamão ou da família do “p” de pato.
Os anos foram passando e eu fui adquirindo cada vez mais a habilidade na leitura e na escrita. A professora já nos orientava para a necessidade de lermos livros, que quem os tivesse em casa deveria lê-los. Pois bem, eis o fato que, creio, me bloqueou para o gosto pela leitura.
Em minha casa, existia uma estante na sala com um compartimento que quase não era aberto, o mesmo continha alguns livros, a Bíblia Sagrada e outros documentos que só a minha mãe manuseava. Não que algum dia eu tivesse ouvido que não era para eu “mexer”. Tal foi o meu erro. Certo dia, me interessei a pegar um dos livros que ali estavam. Toda contente e animada com a iminência de ler meu primeiro livro, já fui me sentando na poltrona e, sem perder tempo, comecei a leitura. Mal havia terminado de ler a primeira página, minha mãe adentrou na sala e , vendo aquela cena, foi logo perguntando:
- O que você está fazendo?
Eu, toda contente e orgulhosa respondi:
- Estou lendo um livro que a professora mandou.
Achando eu que minha mãe iria me elogiar, foi logo dizendo:
- Que livro é esse? Onde você achou isso menina? Me dê logo isso pra cá. Esse livro não é para você, é só pra gente adulta ler. Você perdeu o juízo?
E foi logo, de supetão, retirando o livro de minhas trêmulas mãos.
Depois desse dia fiquei com medo de pegar qualquer livro. A não ser os livros didáticos. Esses sim, eu tinha e tenho segurança para manuseá-los e explorá-los da melhor maneira possível. Só mais tarde, já adulta, é que voltei a ver um livro muito parecido com aquele que eu tentara ler. Descobri que ele era uma febre entre as jovens e que existiam coleções do gênero. Não gostei do seu conteúdo e, então, entendi um pouco a reação da minha mãe naquele momento do passado. Não quero aqui colocar toda a culpa da minha falta de gosto pela leitura na minha inocente mãe – que não fez aquilo por mal -porque são vários os fatores que podem culminar nesse “problema”.
Muitas vezes ouço os colegas comentarem que leram o livro A e o livro B, vários títulos maravilhosos, best selers que fazem sucesso no mundo todo e eu alheia a tudo esse mundo da leitura. Pois bem, para me sentir menos culpada, por vezes compro alguns livros, destes que são sucesso de vendas, talvez, muito mais do que de leitores, porque infelizmente, ainda não li nenhum, eles estão apenas enfeitando minha estante e também me fazem me sentir menos culpada. Pelo menos tentei.
Ah! Estão curiosos para saber o título do livro que tentei ler? A resposta é “Sabrina”. Mas também tem Júlia, Roberta, Juliana, enfim.
Essas são as minhas memórias no mundo da leitura. Não sei se podem ser consideradas um memorial mas, pelo menos tentei.
Por Thâmara Karina Santos do Nascimento.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
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Ô, Thâmara!
ResponderExcluirA sua história de leitura não foi muito bem sucedida, não é mesmo? Mas não desanime! Ainda é tempo!
Quer um conselho? Não fique comprando livros
apenas pra não se sentir culpada, pois culpa você não tem.
Por que não experimenta pegar na biblioteca da escola, livros de crônicas, de contos? Que tal, ler Luís Fernando Veríssimo? É muito bom.
Procure o livro, Rorbeto, de Gabriel, o Pensador, ou O olho de Vidro do meu Avô, esqueci o autor.
Acredito que você vai conseguir vencer este bloqueio. Estou torcendo por você.
Um cheiro e até amanhã.
Maria José (Zui)